Artigos e estudos relacionados à
Satanismo
Nos EUA, o movimento hippie alcançou
proporções enormes com o evento de Woodstock.
Esse espírito atravessou o oceano e invadiu totalmente
a Europa. A era dos grandes eventos tomava conta do país.
Como muitos, eu peregrinava de um acontecimento para o
outro. De toda a parte, vinham milhares para celebrar
festas embaladas pelas drogas. Os maiores ginásios
e estádios da Alemanha comportavam ainda que, por
pouco tempo, a todos. Tomávamos conta dos parques,
armávamos nossas barracas, dormíamos em
sacos de dormir e dividíamos a comida, a maconha,
cada dose. Dançávamos, cantávamos
e fazíamos amor – um mundo colorido de tipos
diferentes. Era uma grande “viagem”. As bandas
de rock davam o tom.
Não era segredo que muitas bandas de rock buscavam
inspiração para tocar em uma dose extra
de drogas. Elas conseguiam expressar em sons o que sentíamos
e cantavam o que pensávamos. Estávamos unidos:
foi o início de uma nova era. Nosso desejo era
penetrar em uma nova dimensão. Sentíamos
que a verdadeira vida só poderia ser encontrada
no invisível e não no visível. A
droga nos abria portas para o além, porque ampliava
a consciência. Parecia um novo tempo, e nós
éramos os profetas.
Com o LSD, eu me aproximava de um mundo até então
encoberto. Queria entrar nele. O sobrenatural me interessava
e eu me abria para as forças do além.
Cada fim de semana, Benno organizava uma festa. O apartamento
dele se tornou um refúgio para o consumo de drogas.
Para embalar nossas “viagens”, arranjamos
colchões, luz, pôsteres, vitrola e uma variedade
de LPs. LSD era um jogo a ser desvendado. As alucinações
nos despertavam para intermináveis brincadeiras.
Não conseguíamos parar de rir ao vermos
imagens na parede se mexendo, a visão dupla. Assistíamos
aos movimentos em câmera lenta. Jogávamos
objetos imaginários uns para os outros e tentávamos
nos comunicar sem palavras. Ouvíamos música
como se estivéssemos em um ambiente enorme. Os
acordes estimulavam nossas fantasias, e os sons nos conduziam
a outras esferas.
Essas experiências, essa força, essa visão
e tudo o que se desenrolava em nós e à nossa
volta nos davam a impressão de podermos influenciar
os outros. Parecia transmissão de pensamento, pois
as pessoas faziam o que eu queria. Essa manipulação
mental era estimulante para mim. Eu era um defensor do
LSD e um missionário das drogas. Obviamente, porque
as vendia.
Era a época de grandes eventos musicais, mas também
dos grandes protestos. Muitos ostentavam Make love, not
war (Faça amor, não faça a guerra)
em suas bandeiras, mas a maioria não estava nem
aí com a paz no mundo, eles queriam apenas promover
arruaça. Uma explosão de sentimentos confusos
levava os jovens a se opor contra qualquer ordem social.
Em Londres, protestamos contra a guerra do Vietnã
e o presidente Johnson. Coquetéis Molotov voavam
pelos ares e policiais eram apedrejados. A batalha era
travada por milhares.
Também na Alemanha, freaks e estudantes protestavam
contra a guerra do Vietnã, contra a imprensa, contra
a visita do Xá, contra o armamento nuclear e contra
o racismo na África do Sul. Eu estava bem no meio
disso tudo. Ho-Chi Minh e Che Guevara eram os nossos ídolos,
o pequeno livro vermelho de Mao Tse-tung era como uma
bíblia para nós. O comunismo não
me conquistou, pois em Iserlohn eu conhecia uma comunidade
maoísta que, na prática, era composta de
egoístas radicais. Isso me dava a impressão
de que primeiro precisavam mudar a si próprios,
antes de querer mudar o mundo.
Eu estava convencido de que meus pais não entendiam
nada do que eu fazia. Enquanto isso, os mórmons
continuavam freqüentando nossa casa. Fora isso, tudo
permanecia como sempre. Quando não suportei a situação,
fui para o apartamento do Benno. Dividíamos o aluguel.
Deixei minha barba crescer como faziam os Beatles na época
e meus cabelos cresceram ainda mais. A empresa na qual
eu trabalhava, aceitou tudo. O que importava eram os canos
torneados. O chefe era um velhinho e me tolerava. Certo
dia, após ter faltado por alguns meses, o chefe
júnior me chamou ao escritório e me demitiu
furiosamente, mas o chefe sênior me contratou novamente.
Ele sabia que, quando eu aparecia, fazia meu trabalho
com muito capricho.
Usava o trabalho como disfarce, pois conseguia muito mais
dinheiro com o tráfico de drogas. Foi assim que
comprei roupas caras em Londres e Amsterdã e adquiri
um carro novo. Centenas de LPs completavam a minha coleção.
A venda de drogas, no entanto, me atormentava, eu tinha
medo de ser pego pela polícia. Quanto mais intimidade
com as drogas, mais distância dos policiais eu precisava
ter.
Em um ponto de drogas em Dortmund, quase me pegaram. Eu
estava no meu carro, e na rua pairava uma penumbra. Para
enxergar melhor a pequena balança, que pesava a
droga, levantei-a contra a luz, o suficiente para ser
iluminado pela lanterna de um policial.
– Posso ver os documentos? – disse ele.
Deixei cair todo o “bagulho”, empurrei para
debaixo do assento e tirei minha carta de motorista. Felizmente,
o policial não percebeu nada.
Outra vez, precisei fugir às pressas, quando estava
vendendo haxixe nos fundos da Fantasio, em Dortmund e
a polícia apareceu de surpresa. Havia meio quilo
de haxixe no assoalho da minha Kombi. Entrei em pânico
e fugi.
Eu tinha mais sorte do que razão. Mesmo em Iserlohn,
por ocasião de uma blitz acompanhada de inúmeras
detenções, eu escapei, apesar de ser um
dos maiores traficantes locais. A polícia prendeu
um amigo que era meu sócio no negócio. Ele
havia vendido LSD a uma moça novata no ramo das
drogas. Como conseqüência, ela tomou quarenta
doses de whisky e quase foi para o além. A notícia
se espalhou e desencadeou uma onda de prisões.
Pressionados pela notícia de uma possível
blitz, dezenas de freaks combinaram contar a mesma história,
caso a polícia aparecesse: diriam não ter
nada a ver com as drogas... mas durante aquele show em
Essen lhes vendi drogas fornecidas por traficantes de
Düsseldorf. Naquela noite, temi ser pego pela polícia,
imaginei como isso arrebentaria o coração
do meu pai. Seu filho, um traficante, preso. Mas a polícia
não apareceu e todos os outros foram soltos sob
fiança. E eu não estava nem aí com
isso.
Essa sorte me tornou mais arrogante e atrevido. Senti-me
por cima da situação e me considerei escolhido
para algo maior, embora não atinasse para o que
seria.
Perdi a noção do que era real e conjecturava
em cima de filosofias radicais. Sentia pena das pessoas
“normais”, pobres seres, cuja vida corria
por entre os dedos. O maior prêmio deles pareciam
ser férias de classe média na ilha de Mallorca.
Muitos jovens à minha volta se portavam de maneira
estranha. Aconteciam as coisas mais terríveis.
Certa noite, um jovem de dezessete anos entrou no bar,
tomou sua primeira dose de LSD e, ficou louco para o resto
da vida. Uma moça, sob o efeito de drogas, cortou
os pulsos e escreveu com o próprio sangue na vitrina:
Eu sou Emília. Depois, ela queria jogar-se do telhado.
Vários usuários de drogas ficaram literalmente
malucos e se tornaram sexualmente perversos.
Cego pela prepotência, eu tinha a convicção
de que isso nunca aconteceria comigo. Eu possuía
personalidade forte e tudo sob controle. Isso só
acontecia a pessoas de caráter fraco, que tinham
a vida mal resolvida ou vinham de lares destruídos.
As baladas mudaram. O que era brincadeira, virou coisa
séria. Era cada vez mais fascinante influenciar
os outros e impor sua vontade através do que parecia
uma transmissão de pensamento. Era comum alguém
tentar controlar minha mente durante uma viagem de LSD,
o que me obrigava a opor-me com todas as forças
contra essa manipulação. Uma moça
tentou isso comigo e, quando me opus, ela caiu aos gritos
ao chão e ficou ali, jogada. A partir daí,
sofreu de confusão mental. O mesmo aconteceu com
um moço que após uma frustrada tentativa
de controlar-me mentalmente, tentou suicidar-se.
Outros se refugiaram no misticismo. Aos bandos, os hippies
migravam para a Índia à procura do nirvana.
Procuravam sua paz na ioga e na meditação.
Estava na moda adorar deuses e gurus. O sujeito permanecia
envolto por fumaça de incenso, totalmente drogado
e mantendo postura ioga. O objetivo do ritual era abrir
a mente para o mundo espiritual, enquanto o cabelo e o
corpo balançavam de um lado para o outro.
As vestimentas eram cada vez mais à moda da Índia,
e o corpo, como era costume, encheu-se de enfeites e braceletes.
Os embaixadores dessa forma religiosa eram componentes
de várias bandas musicais. Até os Beatles
viajavam constantemente para a Índia, para consultar
o guru da banda. A música deles era determinada
por sons de cítara e influência oriental.
Em um show da banda Quintessence, presenciei cerca de
800 pessoas rapidamente conduzidas a adorar Hare Krishna.
Essa onda religiosa e o fluir de forças místicas
e misteriosas também me encantavam.
Já outras bandas divulgavam abertamente sua simpatia
ao diabo. Enquanto Mick Jagger cantava em Altamont “Sympathy
for the Devil” (Simpatia pelo Diabo), os “Hells
Angels” esfaquearam um negro bem em frente ao palco.
Assim como nós tentávamos controlar as mentes
uns dos outros, sob o efeito das drogas, também
os músicos tentavam levar seu público a
acompanhá-los durante as suas nas viagens e influenciá-los.
Jimi Hendrix anunciou: “Uma vez descoberto o ponto
fraco das pessoas, dá para agregar ao seu subconsciente
o que você bem entender...”. Um músico
dos Doors disse: “O inferno tem uma atração
bem mais forte que as coisas do céu. A gente só
precisa atravessar o limite para alcançar tudo”.
Eu amava a música de Black Sabbath, Pink Floyd,
King Crimson, Spooky Tooth, Cream, Led Zeppelin... e a
dos mestres Rolling Stones. Os textos falavam de sexo,
anarquia, violência, drogas, religião oriental,
ocultismo e morte. Era a música das drogas, e só
estando drogado conseguíamos entendê-la.
Nos grandes shows, as pessoas enlouqueciam. Havia mortos
e feridos, durante as apresentações, mas
adorávamos nossos ídolos sem perceber que
estávamos em uma estrada sem volta, sem destino,
desoladora e cada vez mais fria. Para sentir um pouco
de calor, os freaks se juntavam e criavam as comunidades
hippies.
Independente das peregrinações em massa,
com o tempo, tudo tornou-se desolador. Tudo era igual.
O sentimento do vazio se agarrou em mim. Minha expressão
de vida era radical. No entanto, o vazio aumentou sem
parar. Eu ansiava algo misterioso, imperceptível.
Atormentado, vaguei pelas ruas, de carro, procurando não
sei o quê. Seja em Munique, no Café Europa,
ou em Düsseldorf, no Cream Cheese, ou em Londres,
no Marquee Club, ou ainda em Amsterdã, no Paradiso,
e em Dortmund, no Oma Plüsch... nada mudava.
Certa noite, saí chapado do Grünspan, uma
discoteca underground em Hamburgo, e entrei diretamente
em um grupo do Exército da Salvação.
Eles estavam lá, cantando: “Meu bom pastor
é Cristo...”. Fui tomado de pânico
e corri até não poder mais. Sentia-me vazio
e esgotado. No entanto, eu dizia: “melhor vazio
do que crente”! Com os meus vinte e poucos anos,
me sentia como se tivesse sessenta. O que ainda podia
vir?

Extraído do livro Help, Y need
Somebody, de Walter heirerecht
Ganhador do prêmio Areté, o melhor livro
do ano na sua categoria